QUANDO A NOITE É A “NOITE”

Written by on 27/10/2017

2:00 e toca o alarme. Um ritual que ainda hoje, subconscientemente, tenho. Um osso do ofício, talvez.
Andar na estrada com artistas, sejam eles DJ´s, bandas, cozinheiros, actores ou simplesmente trabalhar em festas, força o ser humano a adaptar-se a outra realidade, uma realidade fora da realidade padrão, co-habitando uma com a outra apenas de noite e na “noite”.

A noite é diferente do dia em inúmeros aspectos, a luminosidade sendo a mais óbvia, por exemplo… Porém, a diferença peculiar que me interessa é a mudança de comportamentos sociais que todos nós, humanos, temos quando co-habitamos e interagimos uns com os outros durante a “noite”. Quando digo “noite”, apenas para clarificar, refiro-me não só ao período nocturno mas também à expressão “noite” como diversão, festas, música, álcool, drogas, aventuras, amigos, paixões… a “noite”.

Comecei a trabalhar na “noite” em 2012 fotografando uma banda portuguesa de Drum and Bass chamada Ninja Kore e tive a felicidade de começar a minha carreira no então Optimus Alive 2012 – no dia em que me entregaram o diploma de conclusão do curso de fotografia. Desde então, tenho sido um ávido e atento estudante da “noite”. À medida que me apaixonava por estudar a mudança de personalidade de todas as pessoas que pertencem ao mundo da “noite” quis, automaticamente, aprender mais a nível profissional e técnico sobre como filmar e editar esses vídeos. Que frames captar e o porquê de capta-los.As reações do publico bem como as do artista; a beleza de momentos especificos que as multidões que criaram e que inconscientemente perpetuam a “noite”.

Na “noite” as pessoas que a vivem são a sua versão mais superficial e mais feliz de si próprios. Não porque não se preocupam com os outros e só se preocupam com a sua imagem e coisas superficiais (cada um é como cada qual), mas porque apenas levam com elas a felicidade e o desejo de se divertirem. Isto é verdade em qualquer lado do mundo. A promessa de deixar para trás os problemas e situações da tão complexa e irritante realidade diária. O escape que é a “noite” é uma espécie de máscara alegre que não serve para esconder a tristeza, mas para celebrá-la. Conhecer o próximo, aventurar-se pela insanidade, libertar-se do escravismo imposto pela normas sociais, procurar a demanda épica e excitante de novos laços sociais criados, impossíveis no reino onde o sol brilha… A constante procura da próxima dose de êxtase social, seja um novo amigo, um beijo maroto, um penálti ou simplesmente a “moca” de pertencer a um colectivo, como um músico de uma orquestra que vibra ao sabor do mesmo comprimento de onda ditado pelo condutor da mesma.

Este meu estudo levou-me a conhecer pessoas fantásticas. Profissionais que admiro, técnicas de filmagens e fotográficas irreverente. Artistas que nem nos meus sonhos mais infantis pensaria conhecer, quanto mais ter o privilégio de trabalhar com. Lembro-me com nostalgia de como, em 2014, estive no aniversário do Skrillex em Los Angeles e como essa noite me deu confiança para alcançar mais, me dedicar mais. Ou como em 2015, fui pela primeira vez ao Japão, onde voltei a trabalhar em 2016 e onde a minha alma para sempre ficou no coração de amigos que irei de certo voltar a abraçar.

Admito hoje que sou “junkie”. ”Junkie” pela “noite” e por tudo o que dela advém. Não de drogas, não de álcool, não de todos os maus e influentes aspectos que são divulgados pelos jornais, que sem conhecimento de causa genuíno ou com interesses por detrás destroem a nossa espécie “nocturna”. Admito ainda ser “junkie” pela emoção em trabalhar com indivíduos da minha espécie, com gente profissional e trabalhadora que vive sendo genuina, superficial e feliz, num universo onde a complexidade é apenas a falta de visão de alguém e onde a solução é viver na superfície genuína do nosso colectivo, feliz… na “noite”.


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